1- idade, nome completo, cidade, hobby e profissão.
45 anos, Beto de Jesus, São Paulo, gastronomia, Consultor em Educação.
2 - vc se formou em alguma coisa?
Em muitas coisas (rs) Em Filosofia, em Teologia e em Educação.
3 - como e a relação com sua família hoje em dia? Eles sabem de vc? Te aceitam?
A relação com minha família é muito boa. Sou casado há quase seis anos com o Rodrigo, um admirer e freqüentamos regularmente a casa da minha mãe e dos meus irmãos. Tenho dois sobrinhos (um casal) que têm o maior orgulho do tio e falam disso com a maior tranqüilidade. O Rodrigo é Comissário de Bordo e algumas vezes não pode estar nesses encontros devido ao trabalho e todos perguntam dele. Minha mãe sempre que ele não está manda uma quentinha e um agrado pra ele. Nas reuniões familiares a presença de outros amigos gays tb é super bem vinda.
4 - nos conte mais sobre seus sentimentos, vc era hetero ou sempre foi gay?
Tive iniciação sexual cedo, entre pares, ou seja, entre amigos da mesma faixa etária. Tudo era uma descoberta. Namorei garotas e garotos na mesma fase. Transava com garotas e garotos sem nenhum problema. Nunca isso foi algo que me preocupou. Com o passar do tempo fiquei mais próximos dos homens e me considero gay. Hoje vivo numa relação estável com meu companheiro. Buscamos a lealdade do afeto e não a fidelidade do sexo, pois para nós o mais importante não é com quem vc transou, mas seu compromisso de respeito, de cuidado, de carinho, de companheirismo que deve estar presente em qq relação. Entendemos e respeitamos os que almejam a fidelidade do sexo, mas para nós ela se desgasta com o tempo e esgarça a relação, pois é impossível dizer que a atração sexual fique limitada única e exclusivamente a uma pessoa. Buscamos uma relação verdadeira, sem hipocrisia e sem vida dupla.
5- Nos conte como se conheceram e como foi ate se casarem e morarem juntos...
Nos conhecemos através da Internet. Ele me escreveu um e-mail falando do meu ativismo e eu repondi. E ficamos nos correspondendo até que nos conhecemos pessoalmente e ficamos. Foi num carnaval, na Banda do Redondo. No inicio foi tudo muito tranquilo e percebemos que estávamos cada vez mais juntos. Depois de um ano assim ele veio morar comigo e assim estamos até hoje. Ele é meu porto seguro, meu neném como digo pra ele. Acho que o que foi importante foi o tempo de conhecimento, nada alvoraçado e ninguém falando que amava depois de três encontros, o que é muito comum no nosso meio. É preciso como diz a musica: tudo é questão de manter a mente aberta, a espinha ereta e o coração tranquilo... dai as coisas boas chegam e ficam!
6- Você se considera uma pessoa romântica? Qual seu sonho de consumo e o que te faz perder a cabeça?
Sou uma mistura de romântico e racional, a vida me fez assim. Meu romantismo me faz querer olhar as coisas com os olhos dele tb. Viajo muito e ele também, então os momento juntos são super românticos, óbvio que rola uma DR as vezes (discussão da relação) e aproveitamos esses momentos para amadurecer os nossos laços e reforçar nossos compromissos.
Sobre meu sonho do ponto de vista pessoal, morar numa casa com quintal e com horta e jardim, ter tempo pra andar de bicicleta e sair com os cachorros e ter o Rodrigo envelhecendo ao meu lado, pois é muito bom viver com ele. Do ponto de vista comunitário seria a provação da parceria civil entre pessoas do mesmo sexo e a criminalização da homofobia. Sonho com um mundo onde gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais não sejam discriminados e que todos possam ser respeitados na sua dignidade.
O que me faz perder a cabeça? Pro bem qq liquidação rs pro mal qualquer tipo de violência e/ou discriminação.
7- como vc participa e o que acha do movimento ursino?
Tenho amigos muito queridos na comunidade ursina e me divirto muito quando estamos juntos em alguma festa da comunidade. Participo sempre na medida das minhas possibilidades, pois além do meu trabalho profissional tenho meu ativismo em prol da comunidade GLBT e isso toma muito tempo. Viajo muito a trabalho pelo Brasil e pelo Exterior, quase nunca estou casa, difícil uma semana que passe o tempo todo aqui. Sempre que dá, eu vou prestigiar, pois a comunidade ursina traz uma mensagem interessante sobre os estereótipos, dizendo que o mais importante é ser feliz independente do seu corpo. Agora preciso dar um toque aqui, pois muitos amigos meus que são magros sofrem preconceitos de algumas pessoas, como se nesse espaço o modelo deve ser gordo e muitos gordos tb sofrem preconceitos dos próprios gordos que só querem os magros... uma loucura! Acho que isso tudo deve acabar e respeitar nossos desejos mas não fixá-los e reproduzi-los no âmbito do preconceito, pois daí esse espaço que nasce exatamente pra incluir, pode tb excluir e isso não é bom pra ninguém..
8- Existe algo que te desagrada nesse movimento, vc acha que ficou muito comercial o lance das festas ?
A única coisa que me desagrada no movimento no Brasil é a falta de compromisso político com a luta pelos direitos GLBTs. Conheço o movimento na Europa, nos Estados Unidos, na Canadá e na Argentina. Lá eles são extremamente ligados a isso e lutam pelos direitos. Adoro as festas, os sites especializados, etc, mas a vida não deve girar apenas sob essa prespectiva. Sexo com bears, com chubbies, com grizly, com dadies, com hunters, com chasers, com admires é muito bom, muito gostoso, mas precisamos deixar achar que isso é tudo na cena ursina. A vida seria mais tranqüila se todos lutassem por direitos pra nossa comunidade.
9- Me conte como foi sua experiência na organização da parada
Foi uma das coisas mais interessantes que vivenciei até hoje. Minha primeira parada foi em 1995 no Rio de Janeiro no final da XVII Conferencia Mundial da ILGA – International Lesbian and Gay Association (hoje sou Secretário para América Latina e Caribe da ILGA). Quando voltamos pra São Paulo realizamos em 1986 um ato na Praça Roosevelt, com mais sou menos 400 pessoas. Depois em 1997 fizemos a primeira Parada, saindo já da Paulista com 2.000 pessoas, em 1998 mesmo trajeto com 8.000 pessoas. E, 1999 criamos a Associação da Parada, que existe até hoje. Fui seu presidente de 1999 até 2002. Os números de participantes foram subindo exponencialmente. Hoje temos mais de 3 milhões de pessoas. Ver o mar de gente tomando as vias em nome do seu orgulho é algo que me faz chorar até hoje, pois isso é maravilhoso. Hoje temos a frente da Associação um homem transexual, muito querido e muito meu amigo, Alexandre Peixe, que juntamente com sua equipe vai nos brindar com mais uma maravilhosa parada esse ano como tema: HOMOFOBIA MATA – Por um Estado Leigo de Fato!
10- Porque vc saiu da organização?
Porque a vida é ciclica e não podemos ficar parados, cristalizados... dei o melhor de mim nos anos que estive lá, fiz minhas contribuições, foi muito gostoso. Hoje temo pessoas muito boas nesse papael e assim é a vida. Hoje estou com uma série de responsabiidades no movimento internacional, dedicando grande parte do meu tempo para o trabalho de incidencia politica (advocacy) juntos as Nações Unidas em Nova Yorque e em Genebra.
11- como vc se ve daqui a uns 10 anos? o que pretende ter realizado nesse período?
Bom, estarei com 55 anos, serei um daddy-bear, estarei mais grisalho do que já sou e estarei casado com meu marido que terá então 37 anos. Terei meu doutorado e provavelmente estarei envolvido com a universidade. Continuarei meu ativismo, pois nossa luta pela cidadania GLBT esta no inicio no Brasil e não sei se 10 anos farão muita diferença, espero que sim. Vou querer mais tempo pra cozinhar, terei uma cozinha maior e um jardim com temperos. Não sei se minhas cachorrinhas agüentarão mais 10 anos, pois já estão velhinhas, mas com certeza terei cachorros ao meu lado e obviamente quero estar cercado pelos mus queridos amigos.
12- Deixo o espaço aberto para suas considerações finais
Queria agradecer a deferência a minha pessoa, por terem me convidado pra essa entrevista e queria convidar a todos para conhecerem nosso trabalho na ABGLT - Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais através do site www.abglt.org.br e também o trabalho que desenvolvemos na ILGA - Internacional Lesbian and Gay Association no site www.ilga.org